
Em 2014, Dale Bredesen, neurologista da UCLA, publicou estudo descrevendo um protocolo multiterapêutico aplicado a dez pacientes com Alzheimer. Nove apresentaram melhora substancial ou reversão completa dos sintomas. O estudo causou pequeno impacto na comunidade científica, mas não mudou prática clínica convencional.
Desde então, o protocolo foi refinado através do que Bredesen chama de “Sistema Terapêutico ReCODE” e aplicado a mais de quinhentos pacientes. Os resultados continuam mostrando taxas de melhora que excedem substancialmente qualquer medicamento aprovado para Alzheimer até hoje!
Quinhentos casos documentados de reversão ou melhora significativa de declínio cognitivo. Por que isso não é manchete em todos os jornais? Por que não mudou fundamentalmente como medicina trata o mal de Alzheimer?
A resposta não é conspiração farmacêutica. É mais simples – e talvez mais reveladora sobre como sistemas médicos, regulatórios e econômicos funcionam.
O protocolo de Bredesen não é uma intervenção única aplicável universalmente. É mais um framework que requer personalização substancial, baseado em perfil individual de cada paciente. Dois pacientes podem receber recomendações significativamente diferentes dependendo de suas deficiências específicas, perfil inflamatório, exposições tóxicas, genética, comorbidades, etc.
Essa personalização é a força do protocolo – ela endereça causas específicas de cada caso. Mas é também um obstáculo para adoção médica em larga escala. A medicina moderna é estruturada em torno de protocolos padronizados. O diagnóstico leva à prescrição específica, com pacientes recebendo o mesmo tratamento, independente de variações individuais.
O sistema médico convencional não está equipado para implementar protocolos altamente personalizados que requerem avaliação detalhada de dezenas de marcadores biológicos e ajustes contínuos baseados em resposta individual.
Um protocolo multiterapêutico envolve simultaneamente modificações alimentares substanciais, um programa de exercícios estruturado, a otimização de sono, a suplementação personalizada de vitaminas e compostos bioativos, a correção de desequilíbrios hormonais, o gerenciamento de estresse através de meditação ou outras práticas e a identificação e redução de exposições tóxicas.
Isso não pode ser reduzido a uma pílula que o paciente toma duas vezes ao dia. Requer comprometimento significativo e mudanças profundas em múltiplas áreas de vida.
Muitos médicos, trabalhando dentro de consultas de quinze minutos cobertas por seguros, não têm tempo ou estrutura para orientar pacientes através desse processo complexo. E muitos pacientes, honestamente, preferem a solução simples – mesmo que menos efetiva – a assumir um comprometimento complexo.
Drogas para Alzheimer geram bilhões de dólares anualmente. Desenvolvimento, aprovação regulatória e comercialização de medicamentos requerem investimentos substanciais, frequentemente ultrapassando um bilhão de dólares por droga. As empresas farmacêuticas recuperam esses investimentos através de patentes que garantem exclusividade comercial durante um bom período.
Já o protocolo multiterapêutico, baseado em alimentação, exercício, suplementos disponíveis e modificações de estilo de vida, nada disso é patenteável. Não há exclusividade comercial. Não há modelo de negócio que justifique um investimento de bilhões em estudos clínicos randomizados de larga escala num modelo desses.
Isso não significa que indústria farmacêutica é vilã. Significa que ela opera dentro de incentivos econômicos específicos. Empresas investem onde podem recuperar o investimento e gerar retorno. Intervenções não patenteáveis, por mais efetivas que sejam, não se encaixam nesse modelo.
Agências regulatórias como FDA aprovam medicamentos específicos baseados em estudos clínicos randomizados duplo-cegos. Já o protocolo multiterapêutico personalizado é essencialmente impossível de testar nesse formato. Como criar um grupo controle quando a intervenção envolve dezenas de modificações simultâneas personalizadas?
Por isso, a evidência de quinhentos casos não é considerada suficiente, porque são séries de casos, não estudos controlados randomizados. Uma medicina baseada em evidências – corretamente – exige alto padrão de prova. Mas esse padrão foi desenvolvido para avaliar drogas, não protocolos complexos de modificação de estilo de vida, percebe?
O sistema médico moderno foi construído em torno de um modelo que funcionou extraordinariamente bem para doenças infecciosas agudas. Identificar um patógeno e desenvolver a droga que o elimina, prescrever universalmente e salvar milhões de vidas. Esse modelo transformou a medicina no século vinte.
Mas as doenças crônicas degenerativas, como Alzheimer, não funcionam assim. Não são causadas por patógeno único. São resultado de décadas de desalinhamento entre a biologia humana e o ambiente moderno. São dezenas de fatores contribuindo simultaneamente.
Tentar tratá-las com um modelo desenvolvido para infecções agudas – encontrar a droga mágica – tem produzido resultados frustrantes há décadas. Não por falta de esforço ou recursos, mas porque abordagem não corresponde à natureza do problema.
Essa análise não é para gerar cinismo. É para entender a realidade de como os sistemas funcionam. Sistemas médicos, regulatórios e econômicos não são malignos – são estruturados em torno de incentivos específicos que frequentemente não favorecem soluções complexas e não patenteáveis.
Você pode esperar que sistema mude, pode esperar que próxima droga finalmente funcione ou pode reconhecer que já existe um protocolo com quinhentos casos documentados de eficácia – um protocolo que não requer aprovação regulatória porque é baseado em modificações de estilo de vida e suplementos disponíveis.
Não há garantias de que o protocolo funcione para todos. Talvez para isso seja requerido um comprometimento substancial, mas a evidência existente sugere que funciona para muitos, com eficácia superior a qualquer medicamento disponível.
A pergunta, portanto, não é por que quinhentos casos não são manchete, a pergunta é: sabendo que existem quinhentos casos documentados de reversão completa ou quase completa, o que você faria com essa informação?
Cuide da sua saúde física. Porque ninguém fará isso por você.