D3 não é vitamina – é um hormônio (e por que isso muda tudo)

Saúde física3 dias atrás6 Visualizações

Existe um equívoco médico que dura quase um século. Um erro de nomenclatura que persiste, não por ignorância científica, mas por inércia histórica e conveniência comercial. A substância que você conhece como “vitamina D3” não é, tecnicamente, uma vitamina. Nunca foi. É um pró-hormônio – uma molécula precursora que seu corpo transforma em um hormônio ativo com funções regulatórias profundas em praticamente todos os sistemas orgânicos.

Como chegamos a esse equívoco que até hoje confunde a compreensão pública sobre uma das substâncias mais importantes para a saúde humana?

A história começa com o raquitismo

No final do século 18 e início do século 19, durante a Revolução Industrial, um surto de raquitismo atingiu crianças nas principais cidades da Inglaterra, Europa e Estados Unidos. O raquitismo é uma doença caracterizada pela mineralização insuficiente de ossos e cartilagens, causando deformidades esqueléticas graves em crianças em fase de crescimento.

A doença havia sido descrita pela primeira vez por um médico grego chamado Soranus, em 100 a.C., mas foi com a urbanização industrial massiva que ela se tornou epidêmica. Crianças amontoadas em fábricas escuras, vivendo em cortiços sem luz solar, desenvolviam pernas arqueadas, caixas torácicas deformadas, crescimento atrofiado.

Por décadas, médicos tentaram compreender a causa. Alguns acreditavam estar relacionada à dieta. Outros à falta de exercício. Foi só no início do século 20 que as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar – mas de forma confusa.

Em 1911, um bioquímico norte-americano chamado Casimir Funk criou o termo “vita amines” para designar substâncias essenciais cuja deficiência causaria doenças específicas. A expressão pretendia significar “vital aminas” – compostos orgânicos com nitrogênio derivados do amoníaco, essenciais à vida. Em 1920, Jack Drummond, bioquímico inglês, propôs uma mudança: o sufixo “aminas” não se aplicava a todos os micronutrientes identificados. Então cada substância essencial seria denominada por uma letra do alfabeto, em ordem de descoberta.

O conceito equivocado de vitamina

Por definição, vitaminas são substâncias orgânicas que o organismo necessita em pequenas quantidades, indispensáveis ao bom funcionamento, mas que o corpo não produz. Precisam necessariamente ser ingeridas e absorvidas através da alimentação. Estão na classe dos micronutrientes.

Guarde bem essa definição. Ela será crucial para entender o equívoco.

Paralelamente às pesquisas sobre vitaminas, a ciência avançava no conhecimento sobre a luz solar. Em 1920, estava definida a existência da radiação ultravioleta e suas propriedades terapêuticas. O pediatra alemão Kurt Huldschinsky revelou que crianças com raquitismo melhoravam após exposição à luz solar ou à iluminação artificial que reproduzia luz ultravioleta. A mineralização óssea se recuperava, os doentes se fortaleciam.

Mas havia uma confusão. Óleo de fígado de bacalhau também curava raquitismo. Será que era a vitamina A, já conhecida dos bioquímicos? Um pesquisador chamado McCollum testou óleo de fígado de bacalhau inibindo a vitamina A. Ainda assim, o óleo induzia recuperação óssea. Conclusão: havia outra substância presente, ainda por descobrir. Uma substância lipofílica – solúvel em gordura.

Em 1927, através de colaboração internacional entre laboratórios europeus e americanos, a substância foi isolada. Em 1931, cientistas purificaram e identificaram a estrutura do “ergosterol irradiado”, denominado vitamina D2. Era a quarta vitamina catalogada, daí a letra D.

A descoberta que mudou tudo

Em 1935, o 7-desidrocolesterol foi sintetizado e isolado na pele de humanos, bois e ratos. Quando irradiado com luz ultravioleta, exibia efeitos antirraquitismo. Isso pôs fim às dúvidas sobre os benefícios terapêuticos da luz ultravioleta. O produto resultante recebeu a designação de vitamina D3, ou colecalciferol, em 1936.

Durante décadas, acreditou-se estar lidando com mais uma vitamina. A suplementação dietética com D2 e D3 tornou-se prática corrente. Leite começou a ser fortificado nos Estados Unidos em 1932. Parecia que o problema estava resolvido.

Mas, em 1966 – curiosamente, no ano em que nasci – dois cientistas chamados Judith Lund e Hector DeLuca fizeram uma descoberta que deveria ter mudado completamente a nomenclatura: demonstraram pela primeira vez que a vitamina D3 é um pró-hormônio inativo, absolutamente diferente e desprovido das características comuns às vitaminas.

A D3 não precisa ser ingerida – o corpo a produz através da exposição solar. Ela não age diretamente como cofator enzimático, como fazem as vitaminas. Ela passa por transformações no fígado e nos rins, convertendo-se em calcitriol – um hormônio esteroide ativo que se liga a receptores nucleares e regula a expressão gênica.

Por que ainda chamamos de vitamina?

Se a ciência descobriu em 1966 que D3 não é vitamina, por que oito décadas depois ainda usamos esse termo? Três razões principais: convenção histórica, marketing consolidado e classificação regulatória.

Décadas de publicidade médica e farmacêutica já haviam gravado “vitamina D” na consciência pública. Mudar a nomenclatura exigiria reeducar médicos, farmacêuticos, indústria alimentícia e população geral – um esforço hercúleo sem benefício prático imediato óbvio.

Além disso, a D3 está presente em suplementos alimentares. Manter o título “vitamina” justifica sua classificação como suplemento nutricional, evitando regulamentações mais rígidas aplicadas a hormônios.

Mas essa convenção obscurece uma verdade fundamental: a D3 ativada possui receptores em quase todas as células do corpo humano, com exceção das hemácias e algumas células altamente especializadas. Ela regula aproximadamente 3% do genoma humano – mais de 900 genes-alvo, correspondendo a cerca de 290 sínteses enzimáticas diferentes.

A D3 ativada é responsável pelo metabolismo osteomineral, por processos de regulação imunológica, pelo ciclo celular incluindo apoptose (morte celular programada que previne câncer), pela fertilidade, pela saúde cardiovascular e pressão arterial, pelo metabolismo glicídico e produção de insulina, pelo desenvolvimento do sistema musculoesquelético, pela produção de fibras musculares e volume de massa muscular.

No cérebro, estudos mostram que a D3 ativada tem ação estimuladora do fator de crescimento neural e modulação do desenvolvimento cerebral. Placenta, pulmões, próstata, adipócitos, retina – inúmeros tecidos são impactados pela D3 ativada.

Nenhuma vitamina tem esse alcance sistêmico. Só hormônios operam nessa escala de regulação fisiológica.

Como isso aconteceu ao longo da evolução

Essa dependência profunda da D3 não surgiu por acaso. Ela foi esculpida ao longo de pelo menos 3,5 milhões de anos de evolução humana, desde os hominídeos. Na verdade, o sistema endocrinológico da D3 é muito mais antigo – os hominídeos herdaram esses processos bioquímicos de ancestrais anteriores.

Durante toda nossa evolução, estivemos constantemente expostos à radiação solar. A vida humana sempre foi ao ar livre. Todo nosso organismo é absolutamente dependente da radiação ultravioleta B. Sem ela, não existe síntese de D3. Sem D3, não há regulação adequada de centenas de processos fisiológicos essenciais.

Vale refletir: chamar D3 de “vitamina” não é apenas imprecisão técnica. É uma compreensão fundamentalmente errada sobre a natureza e importância dessa molécula para a fisiologia humana. Quando você entende que está lidando com um hormônio, não com um simples micronutriente dietético, a conversa sobre deficiência, suplementação e níveis sanguíneos ideais muda completamente de patamar.

Aqui está o ponto central dessa conversa – você toma sol? Provavelmente, não. Mora sob um teto, sai de carro de casa, ou de ônibus, ou de metrô, sempre protegido. Vai para um escritório, uma loja, um ambiente fechado para trabalhar, portanto, protegido enquanto o sol brilha lá fora. Isso é ZERO de produção de pró-hormônio em sua pele, em seu corpo. Recomendação? Peça um exame de 25-hidroxi-D ao seu médico. Se estiver abaixo de 60 ng/dL, não fuja mais do sol. Ou suplemente.

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