
Existe um abismo entre o que a ciência contemporânea sabe sobre a vitamina D3 e o que os órgãos reguladores recomendam à população. Não estamos falando de pequenas divergências interpretativas. Estamos falando de diferenças de até 50 vezes nas dosagens recomendadas, de 6 vezes nos níveis sanguíneos considerados adequados.
Esse descompasso não é apenas uma curiosidade acadêmica. Ele tem consequências diretas para a saúde de milhões de pessoas que seguem diretrizes oficiais desatualizadas, mantendo-se cronicamente deficientes em um pró-hormônio essencial que regula centenas de processos fisiológicos.
A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – publicou em 2005 a resolução RDC nº 269, que atualizava os valores de ingestão diária recomendada de vitaminas. Para a vitamina D, os números eram:
Uma mudança ocorreu com a Instrução Normativa nº 28 de 2018, que estabeleceu as listas de constituintes e limites para suplementos. Para adultos (indivíduos com 19 anos ou mais), a ANVISA agora permite dosagens maiores em produtos de venda livre de até 50 microgramas ou 2.000 UI por dia de vitamina D3. Vale notar que esses valores da ANVISA focam na prevenção de deficiências na população geral saudável. No ambiente clínico, médicos e nutricionistas frequentemente prescrevem doses maiores baseadas em exames de sangue (25-hidroxi-D).
Não é só o Brasil. Uma revisão publicada na Nature Reviews Endocrinology analisou as diferenças nas recomendações para suplementação de vitamina D em mais de 40 países, incluindo como diferentes agências interpretam os níveis séricos – a quantidade de 25-hidroxi-D circulante no sangue, medida em nanogramas por mililitro (ng/mL).
Os números são desconcertantes. Na Holanda, acima de 12 ng/mL um indivíduo já estaria em quadro de suficiência. Na Austrália e Nova Zelândia, o mínimo é 20 ng/mL. Para a Endocrine Society global, são necessários pelo menos 30 ng/mL. Para o Vitamin D Council and Experts, o mínimo deveria ser 40 ng/mL.
Enquanto isso, especialistas dedicados ao estudo da vitamina D3 defendem números completamente diferentes. Alguns argumentam que os níveis ideais para manutenção e boa saúde estão entre 40 e 70 ng/mL. Médicos brasileiros que acompanham de perto a literatura científica defendem taxas ainda mais elevadas: entre 70 e 100 ng/mL.
Esses profissionais relatam que pacientes em seus consultórios que fazem suplementação para atingir esses níveis, sob acompanhamento constante, não apresentam efeitos colaterais. Os resultados clínicos são consistentemente positivos – melhora em marcadores inflamatórios, função imunológica, densidade óssea, força muscular, humor, energia.
E quanto às dosagens? A American Society for Bone and Mineral Research publicou evidências de que “uma ingestão prolongada de 250 microgramas (10.000 UI) por dia de vitamina D3 provavelmente não apresenta risco de efeitos adversos em quase todos os indivíduos da população em geral, e isso atende aos critérios para um nível de ingestão superior tolerável.”
Dez mil unidades internacionais por dia. Compare com as 2.000 UI recomendadas pela ANVISA. A diferença é de 5 vezes, 500%.
A resposta está na origem histórica dessas recomendações. Durante a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos, uma comissão técnica investigou problemas de nutrição que poderiam afetar a defesa nacional. Criaram diretrizes nutricionais para forças armadas, civis e populações que necessitavam ajuda alimentar.
Por causa do racionamento de comida durante a guerra, os guias levaram em conta a disponibilidade de alimentos da época. Esses estudos foram chamados de RDA – Recommended Dietary Allowance. Várias revisões foram feitas ao longo das décadas, e em 1997 a RDA se tornou parte das DRI – Dietary Reference Intake – usadas por Estados Unidos e Canadá.
Países ao redor do mundo adotaram orientações semelhantes ou recomendações da OMS e FAO. No Brasil, a ANVISA publicou em 2005 o Regulamento Técnico sobre Ingestão Diária Recomendada.
O problema? Essas diretrizes se baseiam em dados com origem, tratamento e acurácia obscuros. Há dados herdados há décadas sem questionamento sobre métodos usados para extraí-los. Um documento do ILSI – International Life Science Institute, filiado à OMS, admite: “as DRIs são formadas por valores de referência baseados em dados, contudo, estes são frequentemente escassos ou tirados de estudos que possuem limitações para tratar a questão.”
Em outras palavras: as recomendações oficiais se baseiam em dados frequentemente insuficientes, derivados de estudos limitados, muitos deles realizados décadas atrás em contextos completamente diferentes.
Existe uma preocupação legítima que explica parte do conservadorismo: a hipercalcemia – níveis excessivos de cálcio circulante no sangue, que podem depositar-se nos tecidos moles causando complicações graves. Geralmente, a hipercalcemia está associada a câncer ou hiperatividade das glândulas paratireoides.
Há uma unanimidade internacional de que 140 ng/mL de 25-hidroxi-D no sangue marca o limite inicial para provável intoxicação por D3. Mas aqui está um detalhe crucial: segundo a American Society for Bone and Mineral Research, os efeitos colaterais ligados à intoxicação advêm do excesso de cálcio circulante, não do excesso de D3 em si! Não há relatos ou pesquisas que corroborem quaisquer sintomas ligados ao excesso de D3 ou suas formas precursoras.
A toxicidade acontece, mas quase sempre por erro iatrogênico – erro médico ou overdose acidental por produtos mal formulados. Não por suplementação consciente e acompanhada dentro de faixas consideradas seguras pela literatura científica.
Talvez o conservadorismo regulatório persistisse se estivéssemos falando de um micronutriente secundário. Mas não estamos. A D3 ativada possui receptores em quase todas as células do corpo humano. Ela regula aproximadamente 3% do genoma humano – mais de 900 genes-alvo, correspondendo a cerca de 290 sínteses enzimáticas.
A D3 é responsável por metabolismo osteomineral, regulação imunológica completa, ciclo celular incluindo apoptose que previne câncer, fertilidade, saúde cardiovascular, controle de pressão arterial, metabolismo glicídico e produção de insulina, desenvolvimento musculoesquelético, crescimento neural cerebral, e funções em placenta, pulmões, próstata, adipócitos, retina e inúmeros outros tecidos.
Manter a população em níveis cronicamente baixos de D3 – como acontece quando se segue recomendações oficiais desatualizadas – significa comprometer todos esses sistemas simultaneamente.
Estudos mostram prevalência de baixos níveis de D3 em cerca de 60% dos adolescentes brasileiros, de 40% a 58% nos adultos jovens, e entre 42% e 83% em idosos. E esses números são comparados às referências oficiais já consideradas baixas por especialistas.
Se as referências estão realmente desatualizadas – e as evidências sugerem que estão – então os resultados reais são ainda mais dramáticos. Potencialmente, a grande maioria da população brasileira vive em estado de deficiência crônica de um pró-hormônio essencial.
Vale considerar: quando órgãos reguladores demoram décadas para atualizar diretrizes, enquanto a ciência avança rapidamente, quem paga o preço? A resposta é clara – você, sua família, milhões de pessoas que confiam em recomendações oficiais desatualizadas enquanto vivem com deficiências evitáveis que comprometem saúde, energia, imunidade, força muscular, clareza mental e qualidade de vida.
Quando foi a última vez que mediu sua 25-hidroxi-D no sangue? Recomendo que você se atualize a respeito – o pró-hormônio D3 faz toda a diferença para quem busca saúde plena e longevidade com juventude.
Cuide da sua saúde física. Porque ninguém fará isso por você.