Seu infarto começou há 10 anos

Saúde mental3 dias atrás4 Visualizações

Pergunta simples com resposta desconfortável: o que uma pessoa estava sentindo um mês antes de sofrer infarto agudo do miocárdio fatal?

Provavelmente cansaço moderado. Indisposição crescente. Falta de vontade de fazer atividades que antes apreciava. Talvez dificuldade para dormir. Ansiedade difusa. Sinais sutis, facilmente atribuíveis a estresse do trabalho, envelhecimento natural, cansaço temporário.

Nada que sinalizasse urgência. Nada que justificasse interromper a rotina ocupada para uma consulta médica. Nada suficientemente alarmante.

Até que coração parou.

Se essa pessoa não tinha predisposição genética significativa – histórico familiar forte de doença cardiovascular precoce, mutações específicas – a morte poderia ter sido evitada. O que aconteceu não foi evento aleatório súbito. Foi culminação de processo acumulativo que se desenrolou silenciosamente ao longo de anos, possivelmente décadas.

A somatória dos momentos negligentes

O futuro não é uma abstração distante que eventualmente chegará de forma imprevisível. É a sucessão linear de “agoras” encadeados. Cada momento presente torna-se passado instantaneamente. Acumula-se. Forma uma trajetória.

Se você vive cada “agora” de forma negligente em relação à sua saúde, está construindo um futuro específico e previsível. Não é fatalismo – é lógica aplicada às consequências acumuladas.

Considere a trajetória típica: pessoa jovem, vinte e poucos anos, metabolismo funcionando otimamente. Come o que quer sem ganhar peso. Dorme mal ocasionalmente sem consequências óbvias. Não se exercita regularmente, mas não percebe o declínio.

Aos trinta, o metabolismo desacelera ligeiramente. Alguns quilos acumulam-se. Nada dramático. Talvez a pressão arterial suba de ótima para limítrofe. O colesterol aumenta um pouco. Seu médico menciona que “seria bom perder peso e se exercitar mais”, mas não prescreve nada.

Aos quarenta, os quilos adicionais tornaram-se sobrepeso claro. A pressão arterial agora está consistentemente elevada. O colesterol requer medicamento. A glicemia em jejum está subindo. Seu médico prescreve estatina, talvez anti-hipertensivo, recomenda mudanças de estilo de vida, mas pessoa está ocupada demais com a carreira e a família.

Aos cinquenta, temdiagnóstico formal de diabetes tipo dois. É feita adição de metformina. A pressão arterial requer dois medicamentos. O peso continua aumentando. A qualidade de sono piorou e a ansiedade tornou-se crônica. O médico sugere adicionar ansiolítico.

Aos cinquenta e cinco, há um primeiro evento cardiovascular, com angina durante esforço. A angiografia revela bloqueios arteriais significativos. Um stent é colocado. E a lista de medicamentos é expandida.

Aos sessenta, infarto. Sobrevive, mas com dano cardíaco permanente. A capacidade física agora é limitada e a qualidade de vida substancialmente reduzida.

Essa trajetória não é inevitável, mas é previsível quando decisões consistentes ao longo de décadas favorecem a conveniência imediata sobre saúde de longo prazo.

Onde começou o infarto

O infarto aos sessenta não começou aos sessenta. Começou décadas antes, quando escolhas aparentemente triviais acumularam-se progressivamente.

Começou quando a pessoa decidiu consistentemente priorizar o trabalho sobre um sono adequado. Quando escolheu consistentemente a conveniência da comida processada em detrimento da preparação de alimentos reais. Quando adiou consistentemente o início de atividade física regular. Quando ignorou consistentemente os sinais corporais de estresse crônico.

Cada escolha individual era defensável. O trabalho era importante. Preparar comida levava tempo que não tinha. A academia podia esperar mais alguns meses. E o estresse era temporário. Enfim.

Mas as escolhas não permaneceram isoladas. Acumularam-se. Criaram uma trajetória. Cada dia de negligência adicionou um pequeno incremento aos processos patológicos subjacentes – inflamação vascular, resistência insulínica, disfunção endotelial, acúmulo de placas ateroscleróticas.

O processo era assintomático por anos. O problema está aqui: o corpo compensa magnificamente bem até não conseguir mais. Quando os sintomas finalmente emergem, um dano substancial já está estabelecido.

Por que não é fatalismo

Essa análise pode soar fatalista. Parece sugerir que as decisões do passado determinaram um futuro inevitável. Mas a interpretação é oposta.

Fatalismo seria acreditar que o futuro é predeterminado independente de ações presentes. Que você não tem controle, que seu destino está selado, que suas escolhas não importam.

A realidade é inversa: o futuro é profundamente influenciado, e frequentemente determinado, por escolhas acumuladas do presente. Portanto, você tem controle substancial. Escolhas importam enormemente. Mas importam de forma acumulativa ao longo do tempo, e não instantaneamente.

A pessoa que teve infarto aos sessenta poderia ter tomado decisões diferentes aos trinta. Poderia ter priorizado o sono consistentemente. Poderia ter estabelecido o hábito de movimento regular. Poderia ter aprendido a preparar uma alimentação saudável. Poderia ter desenvolvido práticas de gerenciamento de estresse.

Essas mudanças não teriam produzido benefícios dramáticos imediatos, não teria perdido vinte quilos em um mês. A pressão arterial não teria normalizado instantaneamente. Mas, acumuladas ao longo de trinta anos, teriam criado uma trajetória completamente diferente.

A ilusão do tempo infinito

Parte do problema é a ilusão psicológica de que o tempo é abundante. Não é. Quando você tem trinta anos, os sessenta parece distante, há décadas inteiras pela frente, sempre haverá tempo para “começar a se cuidar seriamente”.

Mas o tempo não funciona assim: cada ano que passa sem mudanças substanciais não é apenas um ano perdido, é um ano adicional de dano acumulado que precisará ser revertido ou gerenciado posteriormente.

Durante a evolução humana, essa ilusão não existia. A expectativa de vida era substancialmente menor. As consequências de escolhas ruins eram mais imediatas e óbvias. A pessoa que não conseguia caçar ou coletar eficientemente por estar fisicamente debilitada enfrentava as consequências rapidamente.

Nosso ambiente moderno adia as consequências. O sistema médico oferece intervenções que estendem vida, mesmo com múltiplas condições crônicas. Você pode viver décadas com diabetes, hipertensão, obesidade, através de medicamentos e procedimentos. Isso cria a falsa sensação de que escolhas ruins são reversíveis ou gerenciáveis indefinidamente.

Mas gerenciamento não é cura. Os medicamentos controlam sintomas, mas não corrigem as causas. Cada década adicional vivendo com condições crônicas degrada a qualidade de vida progressivamente e, eventualmente, encurta a longevidade.

O que fazer com essa informação

Reconhecer que o futuro é construído através de escolhas acumuladas do presente não deveria gerar paralisia ou desespero. Deveria gerar uma ação calibrada!

Se você tem trinta anos e ainda está relativamente saudável, reconheça que as próximas três décadas de escolhas diárias determinarão largamente sua saúde aos sessenta. Use esse reconhecimento para estabelecer hábitos sustentáveis agora, quando as mudanças são relativamente fáceis e o dano acumulado é mínimo.

Se você tem quarenta ou cinquenta anos e já tem condições crônicas estabelecidas, reconheça que embora não possa reverter todo dano do passado, pode interromper sua progressão e parcialmente restaurar a função. Cada ano de escolhas melhores reduz a velocidade de deterioração e melhora a qualidade de vida nos anos restantes.

Se você tem sessenta ou mais, reconheça que ainda há uma substancial margem para melhora. O corpo humano é extraordinariamente resiliente. Mesmo com um dano significativo, mudanças de estilo de vida podem melhorar a função cardiovascular, a sensibilidade à insulina, a força muscular, a função cognitiva. Nunca é tarde demais para obter benefícios de escolhas melhores.

A sucessão dos agoras

O futuro que você terá aos setenta está sendo construído hoje. Não amanhã, não na próxima semana, não quando “as coisas acalmarem no trabalho”. Hoje.

Cada refeição é uma escolha. Cada hora de sono é uma escolha. Cada dia com ou sem movimento é uma escolha. Cada momento de estresse gerenciado ou não gerenciado é uma escolha.

Essas escolhas acumulam-se, formam trajetória, determinam seu futuro.

Você pode escolher a “negligência confortável” agora e a “doença desconfortável” depois ou pode escolher a “disciplina ligeiramente desconfortável” agora e a “saúde confortável depois”.

Não é fatalismo. É lógica. Seu futuro começou ontem. Está continuando hoje. E você controla qual futuro está construindo.

Cuide da sua saúde mental. Porque ninguém fará isso por você.

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